segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Independente mente


Fanfarras martirizam o desfile de heróis pelas ruas históricas. Rostos moribundos, telepáticos - apáticos à "histori-cidade" vencida, tremem ao vento gélido que paira no céu azul anil, sobre o asfalto gasto, cor de carvão.
Aqui jaz a patética obrigação de "libertar" sabe-se lá o que. Obediência era a palavra, traz a ausência vã, aos quarenta e cinco de um segundo tempo perdido: não estava para ver...
O vômito regozijante alimentando pias e vasos de verdades nuas e cruas à portas trancadas, mergulha profundo dentro de um "submarino verde-amarelo" que flutua por entre jogos, e grandes negócios. Investimentos retornáveis - mitos e mártires.
Eram aquelas ruas e esquinas, noites tardias... Independente das rotas conhecidas, das avenidas, praças, e salas de cinema entupidas de vedetes, que as lutas se faziam. Não estava para ver.
Ganahando ou perdendo, dependente de um presente, passado futuro que, talvez mente...Em frente, o que se vê?

domingo, 16 de agosto de 2009

O dia em que fui rever o Raul



Nasci em 1º de junho de 1989, mais precisamente às 20:45, horário em que a noite e tudo o que há de bom está apenas começando...Dois meses depois, 21 de agosto, morria uma parte boa do rock, o Raul Seixas. Mas não para o meu pai, que era fã do tal assim como de Caetano e Gal.
Cresci ouvindo que tinha uma mosca na minha sopa e logo desisti de ingerir o alimento. Os vinis tocavam enquanto embalançava as pernas na janela e cantava ao som do cara que dizia estar com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Mas ele já não estava morto? Nessa época ainda não tinha idade para saber que o Raul havia morrido sem o fígado, e nem outras histórias do seu baú. Isso eu só soube a partir dos cinco, após ouvir "bota pra fuder", na linguagem rock n'roll de Marcelo Nova, parceiro do Raulzito. "Isso é o Camisa, minha filha!", exaltava meu pai, erguendo os braços (quando ele fazia isso ou era pra falar de Raul, do Caetano, da Tropicália, ou do Marceleza e dos Panteras)...Pode ser de Vênus, o que for, mas foi o primeiro palavrão que ouvi em alto e bom tom, e que por sinal é o mais utilizado no meio em que decidi trabalhar, então, fudeu!
A Sociedade Alternativa parecia fazer parte da minha infância. Nos fins de semana, meu pai tomava cereveja de meia, com alguma camisa que ele mesmo pintava ou com uma vermelha que tinha o Jim Morrisson estampado, aproveitando o dia em que a terra parou para contar alguma passagem da Metamorfose Ambulante pelos Estados Unidos, há dez mil anos atrás. Foi então que comecei negar todas aquelas profecias, "será que meu pai tava ficando Maluco Beleza?", "por que não tinha mais medo da chuva, do meu tio de óculos escuros e do quadro que ele pintou?".
Eu já tava crescidinha, tocava violão, mas não tocava mais Raul. E meu pai? Meu pai, queria que eu usasse aquele "sapato" que ele gostava, mas queria escolher o do meu gosto que não ia me apertar. Mas aquele que se diz o início, o fim, e o meio não poderia deixar de tocar na minha vida. E numa noite, em setembro de 2004 fui assistir ao "Raul Seixas, a Metamorfose Ambulante", espetáculo do mesmo cara que, há sete anos, fez a vontade de uma criança que queria aprender violão.
A cada cena era como um filme repetido, só que melhor, pois me dava conta de que, de alguma forma, eu já sabia de toda aquela história antes mesmo de assistir. "Meu pai tinha razão", pensei quando a lágrima caiu...

Poor little fool
, "Toca Raul"!

domingo, 9 de agosto de 2009

Reticente pensar


- Cuidado!
- Ah, obrigada!
- Agora dá para atravessar...

- Você tá indo pra lá também, não é?
- Isso mesmo.
- Eu lembro de você...Tem muita gente trabalhando nisso...
- Geralmente é quem, de certa forma está envolvido com a área.
- Você faz cinema?
- Acho que não...

Eu vejo cinema, sinto na tela tudo o que ele faz. E tudo, nem sempre suporta duas horas de exibição, muito menos possui 35mm. É apenas uma metragem! Então, para que tanta definição?
"Pré-cinemas, pós-cinemas", e para os ignorantemente céticos, "Futuro do pretérito". É possível pensar a sétima arte de outra forma?

"O cinema se cristalizou. Precisa acompanhar as necessidades estéticas do expectador das novas mídias...Quebrar a linguagem."(Arlindo Machado);

"São formas que cortam e cortam as passadas, e se apropriam delas, reinventando formas de emissão e recepção."(Pedro Paulo Rocha);

Arte nova"(Pedro Paulo Rocha):
Cinema Novo, expandido, invertido, fora da ordem, constituído na imagem, no plano, na linguagem...

Eu penso no cinema, assim como no audiovisual e seus efeitos enquanto expectadora. O importante é o que recebo e como recebo. Vídeo, clipe, longa, curta, meia boca, tudo é arte, desde que para mim seja belo. Não se trata de um discurso egocêntrico, antropocêntrico, mas no fim das contas não há ninguém melhor para se tornar objeto do que o receptor. E o que é belo para mim não é regra, por isso a concepção de arte é tão polissêmica, mesmo quando há tentativa de decupá-la em escolas, parâmetros, técnica...
Mas a arte não é só isso. O cinema não é. Ele é sinestésico, transgride, move, desequilibra, e aí sim ele é arte, quando cai no gosto editável de cada um: a estética de um prazer íntimo que salta aos olhos, pelos mais variados espaços visuais, explicada talvez pelas faculdades preexistentes do juízo...


- Estou um pouco nervoso, vou dar uma entrevista ao vivo...
- Ah, mas deve ser um nervoso com gosto reconhecimento, o "novo" cinema merece...Estou nervosa também, ontem mesmo descobri que estou concorrendo a um prêmio...
- Sensasional isso, cara! É de cinema?
- Não, é de propaganda.
- E qual o prêmio?
- Um troféu, para os "novos" da propaganda.
- É isso mesmo...São essas coisas que nos fazem continuar, e por falar nisso, assista ao meu Kynemas.
- Estranho não falar cinema, mas vou experimentar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Transpiração


"Mãos frias!" As mesmas que enxarcam a superfície em que se inscreve o encontro com a inspiração.

"De onde vem a inspiração?", entona o cantor embebido pela mesma. Ele sabe, nós sabemos que as melhores respostas só funcionam em longas prosas, e letras de música. Inútil questionamento da alma, querer dominar fenômenos químicos, físicos... Naturais! É o dom da contemporaneidade, essa insaciável escavação por um quê de verdade. "Arqueologia fajuta do poder!"
...
Tive um encontro com a inspiração. Casual, a ponto de questionar a veracidade dos fatos. Mas a inspiração é um fato? De fato, não estive farta. Foram horas, por vezes silêncio, noutras um discurso suado, esvaído no calor dos ânimos.
Entusiasta de curtos e eloquentes acasos? Não por opção, mas pela inspiração, sorrateira, de ritmo acelerado que sobe e desce ladeira num plano feito improviso. Primeirísso mar infindo...
Só sei que tinha maresia empregnada com cheiro bom, o frescor da bebida gelada, filosofia afogada em mesa de bar e um calor abafado de qualquer coisa séria, que chamava para ver a banda passar.
...

Por aí, lancei foquetes e queimei algumas vaidades na fogueira da roça. Ouvi a frase mais chula, transformada em piada inocente na voz da matriarca, dancei conforme a música. Bati palmas para marcar os passos e tirei o chapeu de palha pra alcançar a rural de um rapaz pneumático, que dizia "É para amar e gozar!"(risos)...Peguei carona.
Foram filmes, livros e discos, um presente...Transpirei alguns demônios - amarguei ressaca literal, moral- sem sentir, de onde vieram as melhores idéias.
Bati algumas portas, abri outras. Estive em boas companhias...
E quanto à inspiração? Com todas as letras:
ah, como é bom!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sob efeito

Coloquei no cartaz a nada-poética objetivada em uma frase.
Vocábulos em série, hermeticamente figurados afim de neutralizar aquele ardor desenfreado de uma poética não declarada. Reproduzi o esquema aristotélico, caí naquela rede semântica: mais cedo ou mais tarde palavra puxa palavra...
Onde esteve o meu bom senso ao recordar aqueles versos? Fiz mais um anúncio de jornal. Chapado conceito, centrado no alvo, pra ninguém. Aqui caberiam rimas...
Pobre mente criativa. A julgar aquela marca, semiótica embassada, nutrindo-se da argumentos quase lógicos para sancionar a paixão despertada pelo objeto. Desmonta a estrutura canônica,
pensa na narrativa. A linguagem emocional dá o que pensar, pura prosa. Pausa para reflexão...
O slogan é uma frase de efeito. Aquela deixa colateral.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Inferninho astral na casa dos vinte

- Bom dia!
- Bom dia.
- Nossa, que cara é essa?
- Estou na merda...

- Mas essa merda deve ser muito boa mesmo para você estar nela e não feder...pelo menos não estou sentindo.
-Hahaha, não vou nem reclamar a interpretação literal. Só agradeço pelos risos que provocou e pela ética aplicada ao contentar-se em ouvir sobre a merda pela metade (acho que foi por isso que não sentiu o fedor).

- ...Eu conheço muito bem gente desse seu signo e sei que não adianta insistir, quando colocam uma coisa na cabeça...E adoram manter a curiosidade.
- É, eu sou de gêmeos, mas só em ter começado a contar já um bom sinal... não sou muito de falar mas, também gosto de você, merda!
....

- Quer saber? Acho que você está em seu inferno astral.
- Ah, vai à merda com essa história!
- É, começa um mês antes de seu aniversário e termina no dia dele, não sabia?
- Claro que sabia!
- Sempre sabem de tudo...
- E acho que você pode ter razão, ele se aproxima...


Sei já não posso mais parar, é tarde e a vida sempre pede pra voltar. Ah, meu lugar...
Lugar, é aonde eu me faço, tranquila e quase nunca que descanso e nunca me canso de tentar.

Esse "lugar" hoje não me pertence e parece que nunca pertenceu. É um inferninho todo ano, todo dia...

"Cansei! Não quero mais, deixei por fazer...Mudei de idéia, quero voltar, acho que não posso, estou em outro lugar...Encontrei o que procurava! Ainda não é isso, está faltando algo... Aquelas pessoas me entediam...Será que é isso mesmo? A minha vida está uma bagunça...
I don't belong here! Ah, como eu adoro essa música, e essa também, e essa outra, cresci ouvindo isso, estou ficando velha (mas continuo a cantar e a dançar).
Aconteceu de novo. Disse que não ia deixar, mas eu quero tanto...
Fiz de novo. Ou melhor, não fiz de novo... Quis novamente, sem palavras...
Essas pessoas me intrigam... Aquele olhar me desconserta, isso me excita, não vou dizer.
Vamos tentar de novo? Ah, que coisa boa, temos um contrato, um trato. Vamos! Estamos.
Eu sei, eu sei, eu sei, e quero saber mais. Não quero dormir, tá na hora de ir...Tá na hora de rir, mais uma por favor! Eu tenho sede...À noite.
Será que vai chover? Todo ano chove... Não vou fazer planos, não quero mais faze-los. Se estiverem comigo...
É hoje. Está fazendo sol, que calor insuportável! Acho que não sei mais escrever, será que perdi o tato? Me perguntam como estou, e eu ainda respondo : velha. Eu não me sinto assim, aliás, não sei o que sentir. É o inferninho astral na casa dos vinte... Amanhã tudo volta anormal."

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Achados partidos



A coincidência e a reincidência dos fatos revelam um estado.

Com um livro, um filme e uma falha nas mãos atentei para a não-ficção de uma vida em pedaços. O "Espelho Partido", escrito por um documentarista de imgens e sons norteou o início da busca por uma verossimilhança de discursos, éticos, epistemológicos embasados em uma leitura cinematográfica diferente do intrigante drama psicológco ao qual, como de costume, me entrego diante da realidade ficcional - A verdade é que gosto de não me encontrar e me ver nesses filmes... Seria uma fraude a ideal de comum acordo entre ego e superego? - E convém a idéia de ter que ficar me "encontrando", ainda que agora tenha que enxergar através de lentes que refletem qualquer aspecto da realidade embasada.

A vida real...Fragmentos de vidas, o convívio social e o desconforto de não se saber em partes, o que é real em meras associações confusas. Lançado nesse meio tempo, o filme "Os Abraços Partidos", e mais uma quebra, mesmo que em seu título, provocou uma inquietante expectativa. Então, assombrada pelos coincidentes "partidos", consumei o meu tormento:

Quebrei um espelho, reverberei os risos da noite anterior...
Eles não ouviram o desespero.
Me encontrei em pedaços e não me pareceu um mau presságio, mas um estado constante.
Mais uma vez estou sem palavras, e o intangível salta aos olhos. Achados partidos...
Espelho partido, Abraços Partidos, espelho quebrado: partidos.