domingo, 16 de agosto de 2009

O dia em que fui rever o Raul



Nasci em 1º de junho de 1989, mais precisamente às 20:45, horário em que a noite e tudo o que há de bom está apenas começando...Dois meses depois, 21 de agosto, morria uma parte boa do rock, o Raul Seixas. Mas não para o meu pai, que era fã do tal assim como de Caetano e Gal.
Cresci ouvindo que tinha uma mosca na minha sopa e logo desisti de ingerir o alimento. Os vinis tocavam enquanto embalançava as pernas na janela e cantava ao som do cara que dizia estar com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Mas ele já não estava morto? Nessa época ainda não tinha idade para saber que o Raul havia morrido sem o fígado, e nem outras histórias do seu baú. Isso eu só soube a partir dos cinco, após ouvir "bota pra fuder", na linguagem rock n'roll de Marcelo Nova, parceiro do Raulzito. "Isso é o Camisa, minha filha!", exaltava meu pai, erguendo os braços (quando ele fazia isso ou era pra falar de Raul, do Caetano, da Tropicália, ou do Marceleza e dos Panteras)...Pode ser de Vênus, o que for, mas foi o primeiro palavrão que ouvi em alto e bom tom, e que por sinal é o mais utilizado no meio em que decidi trabalhar, então, fudeu!
A Sociedade Alternativa parecia fazer parte da minha infância. Nos fins de semana, meu pai tomava cereveja de meia, com alguma camisa que ele mesmo pintava ou com uma vermelha que tinha o Jim Morrisson estampado, aproveitando o dia em que a terra parou para contar alguma passagem da Metamorfose Ambulante pelos Estados Unidos, há dez mil anos atrás. Foi então que comecei negar todas aquelas profecias, "será que meu pai tava ficando Maluco Beleza?", "por que não tinha mais medo da chuva, do meu tio de óculos escuros e do quadro que ele pintou?".
Eu já tava crescidinha, tocava violão, mas não tocava mais Raul. E meu pai? Meu pai, queria que eu usasse aquele "sapato" que ele gostava, mas queria escolher o do meu gosto que não ia me apertar. Mas aquele que se diz o início, o fim, e o meio não poderia deixar de tocar na minha vida. E numa noite, em setembro de 2004 fui assistir ao "Raul Seixas, a Metamorfose Ambulante", espetáculo do mesmo cara que, há sete anos, fez a vontade de uma criança que queria aprender violão.
A cada cena era como um filme repetido, só que melhor, pois me dava conta de que, de alguma forma, eu já sabia de toda aquela história antes mesmo de assistir. "Meu pai tinha razão", pensei quando a lágrima caiu...

Poor little fool
, "Toca Raul"!

domingo, 9 de agosto de 2009

Reticente pensar


- Cuidado!
- Ah, obrigada!
- Agora dá para atravessar...
- Você tá indo pra lá também, não é?
- Isso mesmo.
- Eu lembro de você...Tem muita gente trabalhando nisso...
- Geralmente é quem, de certa forma está envolvido com a área.
- Você faz cinema?
- Acho que não...
Eu vejo cinema, sinto na tela tudo o que ele faz. E tudo, nem sempre suporta duas horas de exibição, muito menos possui 35mm. É apenas uma metragem! Então, para que tanta definição?
"Pré-cinemas, pós-cinemas", e para os ignorantemente céticos, "Futuro do pretérito". É possível pensar a sétima arte de outra forma?
"O cinema se cristalizou. Precisa acompanhar as necessidades estéticas do expectador das novas mídias...Quebrar a linguagem."(Arlindo Machado);

"São formas que cortam e cortam as passadas, e se apropriam delas, reinventando formas de emissão e recepção."(Pedro Paulo Rocha);

Arte nova"(Pedro Paulo Rocha):
Cinema Novo, expandido, invertido, fora da ordem, constituído na imagem, no plano, na linguagem...
Eu penso no cinema, assim como no audiovisual e seus efeitos enquanto expectadora. O importante é o que recebo e como recebo. Vídeo, clipe, longa, curta, meia boca, tudo é arte, desde que para mim seja belo. Não se trata de um discurso egocêntrico, antropocêntrico, mas no fim das contas não há ninguém melhor para se tornar objeto do que o receptor. E o que é belo para mim não é regra, por isso a concepção de arte é tão polissêmica, mesmo quando há tentativa de decupá-la em escolas, parâmetros, técnica...
Mas a arte não é só isso. O cinema não é. Ele é sinestésico, transgride, move, desequilibra, e aí sim ele é arte, quando cai no gosto editável de cada um: a estética de um prazer íntimo que salta aos olhos, pelos mais variados espaços visuais, explicada talvez pelas faculdades preexistentes do juízo...

- Estou um pouco nervoso, vou dar uma entrevista ao vivo...
- Ah, mas deve ser um nervoso com gosto reconhecimento, o "novo" cinema merece...Estou nervosa também, ontem mesmo descobri que estou concorrendo a um prêmio...
- Sensacional isso, cara! É de cinema?
- Não, é de propaganda.
- E qual o prêmio?
- Um troféu, para os "novos" da propaganda.
- É isso mesmo...São essas coisas que nos fazem continuar, e por falar nisso, assista ao meu Kynemas.
- Estranho não falar cinema, mas vou experimentar.