quarta-feira, 27 de maio de 2009

Achados partidos



A coincidência e a reincidência dos fatos revelam um estado.

Com um livro, um filme e uma falha nas mãos atentei para a não-ficção de uma vida em pedaços. O "Espelho Partido", escrito por um documentarista de imgens e sons norteou o início da busca por uma verossimilhança de discursos, éticos, epistemológicos embasados em uma leitura cinematográfica diferente do intrigante drama psicológco ao qual, como de costume, me entrego diante da realidade ficcional - A verdade é que gosto de não me encontrar e me ver nesses filmes... Seria uma fraude a ideal de comum acordo entre ego e superego? - E convém a idéia de ter que ficar me "encontrando", ainda que agora tenha que enxergar através de lentes que refletem qualquer aspecto da realidade embasada.

A vida real...Fragmentos de vidas, o convívio social e o desconforto de não se saber em partes, o que é real em meras associações confusas. Lançado nesse meio tempo, o filme "Os Abraços Partidos", e mais uma quebra, mesmo que em seu título, provocou uma inquietante expectativa. Então, assombrada pelos coincidentes "partidos", consumei o meu tormento:

Quebrei um espelho, reverberei os risos da noite anterior...
Eles não ouviram o desespero.
Me encontrei em pedaços e não me pareceu um mau presságio, mas um estado constante.
Mais uma vez estou sem palavras, e o intangível salta aos olhos. Achados partidos...
Espelho partido, Abraços Partidos, espelho quebrado: partidos.

domingo, 17 de maio de 2009

Imagem e semelhança da música


Após um semestre tentando encontrar alguma pista que me fizesse acreditar que o meu interesse por gêneros audiovisuais fazia algum sentido, eis que, no último dia de uma das melhores disciplinas do meu curso, já deixando a sala, ouço um elogio que dedico em parte à minha admiração e interesse pelo gênero auddivisual televisivo pós-moderno, o videoclipe - "Muito bom o trabalho de vocês..." "Está digno de uma sessão de comunicação." "Consertando umas coisinhas, escrevendo mais uma ou duas páginas e pronto...". "Poxa, obrigada!" "Obrigada, mesmo! Corrigirei nas férias e apresentarei com certeza." - E fui para casa radiante, ouvindo a banda que embalou o meu trabalho, dormir as 3 noites que ganhei por causa de uma Análise Comparada de dois videoclipes baianos.

Quase um ano depois...

"E aí? Cadê o trabalho, vai apresentar, né?" "Ainda não fiz as correções..." "É que viagei, e teve aquele projeto...Mas vai dar tempo!"

Em pleno domingo, faltando pouco mais de uma semana para o término do prazo de inscrição para o seminário, recuperando as energias desprendidas na sexta e no sábado, resolvi, com todo gás corrigir o trabalho - afinal, não é nenhum trabalho falar de duas das minhas paixões(para mim é difícil ter apenas uma): música e videoclipe.
Remexendo nas memórias do meu computador, buscando alguma informação que complementasse a bibliografia, encontrei um texto meu sobre videoclipes que havia escrito há anos, e aquivado logo quando comecei com essa história de blog. Eu nunca postei esse texto, e não sei porque nunca postei nada a respeito dessa experiência audiovisual - acho que eu tinha medo era de descobrir que não entendia era nada desse tal de clipe - tão importante na minha formação pessoal, e que hoje, está virando algo mais sério...O texto nada tem a ver com a minha análise comparada dos videoclipes baianos que pretendo apresentar: até porque só absorvi essa referência após estudar um pouquinho e notar a carência de estudos sobre as crescentes produções locais desse gênero audiovisual.


Então, lá vai uma análise empírica e sensitiva de conteúdo dos cinco clipes que marcaram o meus dos anos 97,98,99...


A internet me permite hoje, a qualquer hora, satisfazer um prazer que antes só era possível lá pelas 3 da madrugada. Não! Definitivamente nada tinha a ver com as libidinosas meias verdades dos filmes pornográficos de canal aberto... Era mais do que isso. A convergência da música com imagens que chegavam a chocar pela sua complexidade e tradução daquilo que era musicado, podia ser vista nos videoclipes , lado b, amp, alternativos (chamem do que quiser). Aqueles que ninguém assistia porque não entendia e que perderam o excedente espaço no único canal de música, que atualmente, prefiro não comentar mas que inda pode ser contemplados pela difusão de um meio mais democrático no qual a programação é da melhor qualidade para quem sabe usar.
Era apenas uma questão de sensibilidade, pois me lembro de ser muito jovem para ter conhecimentos técnicos sobre audiovisual. Mas aquilo prendia a minha atenção de tal forma que as imagens permanecem até hoje na minha memória quase que exigindo que eu as externe, registrando aqui a minha admiração pela combinação mais completa - “fotográfica, cinematográfica, video-artística, musical”.

Estava cochilando em frente à TV numa madrugada de 1997, quando fui despertada por um psiu! Era a Björk cantando It’s oh so quiet - Muitos ainda me questionam sobre o potencial artístico "dessa não mulher histérica que diz que faz música", e eu nem gasto a saliva explicando o que é histeria e música. - A fórmula desse clipe possui a assinatura do Spike Jonze, um dos caras que sempre admirei sem saber era a referência nos estudos pós-modernos sobre vídeiclipe (para aminha felicidade,descobri isso e outras coisas antes de virar acadêmica). Esse “Dançando na chuva” meio propaganda dos anos 80 leva a crer que “curta musicais” são esteticamente audíveis.
Mas O que seria da Björk se não fossem os seus clipes polêmicos? Por isso tenho que registrar aqui um que que se enciaxe nessa descrição.EmAll is full of love, a estranheza chega a ponto de questionar os sentimentos humanos e a tecnologia ao exibir dois robôs se relacionando enquanto passam por uma manutenção... Coisa de freakshow? Não, faz muito sentido.

Outra assustadoramente envolvente é a Portishead. Certa vez cheguei a ter pesadelos por causa de All mine. Em p&b como na época dos festivais de música, do yeah yeah yeah, e dos Mutantes, a menina andrógena faz o seu show apático cantando tudo aquilo que deseja dizer e que talvez fosse incapaz de expressar de outra forma. Percebi que ainda era uma criança e que a estética das imagens que me agradavam estavam bem distantes do mundo infantil

Num ritmo menos apavorante o Daft Punk, dirigido também pelo Jonze, personificou Da funk em um dogman urbano embalando sua dura vida com esse som. Foram cinco minutos atentos à história daquele cão cidadão que é apenas mais um dentre tantos espalhados nas metrópoles.

Música e imagem já se mostram indissociáveis...A quinta e última “audiovisão” é Elecktrobank do Chemical Brothers, dirigida pelo mesmo Spike Jonze. Poderia ser apenas uma transmissão de ginástica rítimica pela TV, mas a música juntamente com a atuação de Sophia Coppolla captadas pelo criador transmitem o estado emocional da ginasta a cada movimento, em cada expressão, sem precisar cantar ou dizer uma só palavra. Essa parceria de ritmo pulsante entre os brothers e Jonze rendeu uma das melhores produções do gênero.

*Escrito entre o final dos anos 90, início de 2000.


Hoje a minha visão desses e de outros clipes e mais ampla, ainda que limitada. Mas o que posso afirmar sobre o videoclipe é que ele transmite além da imagem do artista e o que é dito em sua música: ele recria um universo iconográfico no qual a música e imagem fazem parte, se relacionam, constituindo uma nova significação para essa produto. E isso só pode percebido aos olhos de quem viveu e vive o pastiche de informações midiáticas do mundo moderno, pós-moderno.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Diariamente



A rotina não me fascina, não me impulsiona nem me domina - Levanta, se arruma, encara, estuda, se alimenta de tudo o que está ao redor e depois, começa tudo outra vez...

Diariamente, tem que ser diferente. É preciso sair, chegar aonde nunca se imaginou e voltar constante, por inteiro, de malas prontas para um passado que está presente.
No percusso de tantas mudanças cabe uma breve, semi-breve, pausa para o reencontro. A expectativa de um retorno a um lugar comum, onde o vínculo maior é quase secular dispersa a nuvem de anseios e deveres da poluição urbana. Mas ela não demora a pairar sobre a cabeça. Ela não é passageira, as viagens e os reencontros são...

Dias e semanas se misturam em cálculos mal feitos por quem não tem uma boa relação com números e sim com palavras: enunciados ditos e não ditos pronunciam o discurso que estimula o pensar. E palavras são pensadas antes de serem ditas e ditas para depois se pensar. No meu caso, penso mais nas palavras do que as digo, e quando digo não são exatamente como as penso...Isso deveria ser mais complexo do que a relação com números - pares, ímpares, primos ou não - eles são o que são. É regra, de fato.

Há dias tudo saiu do previsto. E isso não é um problema. Apenas demorei a perceber que o que me parecia mais um inesperado convite a uma futura rotina traçada pela lógica seria o encontro com o que jamais me fora apresentado de tal forma e que, não por acaso, precisava encontrar.

Diariamente, para mim, é diferente ao acordar ou, simplesmente ao não dormir... Levantei cedo sem hesitar, curei o sono antes da primeira xícara de café, deixei que tomassem a rédeas dos meus afazeres, mudei o itinerário, e senti vontade de escrever.